segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

O Chá da Meia-Noite


Acontece algumas vezes comigo:
Aplico o passe magnético em moribundos. Pouco depois, exalam a último suspiro.

Acontece algumas vezes comigo:
Aplico o passe magnético em moribundos. Pouco depois, exalam a último suspiro. Pois é! Morrem!

Companheiros dizem que meu passe é “o chá da meia noite” – remete o degustador para o Além.

– Se eu estiver mal, não chamem o Richard! – advertem.

Brincadeiras à parte, há a velha questão, envolvendo o doente terminal, convocado às etéreas plagas, bilhete em mãos, pronto para o embarque.

É possível apressar a partida, usando recursos como o passe magnético?
O folclore do sertão nos diz que sim, apresentando-nos a figura do “ajudador”.

Trata-se de alguém especializado na “incelência”, o empenho de convencer o moribundo a soltar-se.

O “ajudador” emprega, em seu mister, cantos, ritos e rezas especiais.
O passe magnético, aplicado em clima de contrição, com evocação da proteção divina, é eficiente “incelência”, a favorecer a ação de benfeitores espirituais que assistem os desencarnantes.

Geralmente, o paciente terminal tende a agarrar-se ao corpo depauperado, prolongando a agonia. Devemos conversar com ele, ao aplicarmos o magnetismo, procurando faze-lo sentir que não está só, que há o amparo espiritual, que seus sofrimentos terão fim, que a vida continua...

Na medida em que consigamos dar-lhe alguma segurança, ele se soltará mais facilmente, e o desencarne acontecerá sem delongas, facilitando a ação dos benfeitores espirituais.

O problema maior dos que partem são os que ficam. Os familiares, não raro em desespero, cercam o leito, em ardentes orações, implorando a complacência divina. Não conseguem encarar a separação. Em nenhuma outra situação se evidenciam, de forma tão dramática, nossas velhas tendências egocêntricas. Todos pensam em si, na sua perda pessoal.
Esquecem o enfermo, em quem pesam os anos e as dores, para o qual a morte será abençoada libertação. Produzem a chamada “teia de retenção”. Sustentam, magneticamente, com sua inconformação, o moribundo. Não evitam a morte. Prolongam a agonia.

O paciente, que poderia libertar-se em alguns minutos, levará horas, ou dias, em sofrimentos desnecessários. Há exemplos variados, envolvendo pessoas ilustres. Não obstante seu valor, experimentam agonia prolongada, em face da “teia de retenção”, sustentada por milhares de beneficiários de sua generosidade. Isso porque eles não conseguem encarar com serenidade o retorno do benfeitor à vida espiritual.

Nesses casos, os “ajudadores” do Além costumam usar interessante recurso:
Promovem, com passes magnéticos, uma recuperação artificial do paciente. Melhora, recobra a lucidez, revela promissora recuperação.
Os retentores suspiram, aliviados, relaxam, vão descansar… Os mentores espirituais aproveitam a pausa na “teia de retenção”, e em breves momentos o moribundo exala o último suspiro. Muitos se revoltam:
– Pensávamos que Deus ouvira nossas orações! Ele nos enganou…
Certa feita, conversei com um médico, pertencente à equipe dos “anjos do asfalto”, que atende acidentados, na Via Dutra, eixo Rio-São Paulo.
Comentou que são comuns ocorrências dessa natureza. O paciente com traumatismo craniano, “mais para lá do que para cá”, resiste enquanto há familiares e amigos por perto, em correntes de oração, a vibrarem em favor de sua recuperação.

Com o passar do tempo, o pessoal vai se afastando. Ficam apenas os mais chegados. De repente, o paciente parece melhorar. Os familiares respiram, aliviados, relaxando a vigília. Então ocorre a morte. Essa situação repete-se com tanta freqüência que o povo costuma dizer:
– Foi a melhora da morte. Melhorou para morrer!

Isso mesmo!
Melhorou para afastar familiares que estavam retardando o passageiro do Além.

Com a Doutrina Espírita aprendemos ser “ajudadores”, jamais “retentores”. Exercitamos a “incelência” ideal, que nos habilita a enfrentar com serenidade os desafios da Terra e as dúvidas do Além:

A oração e a submissão à vontade de Deus.

Livro: Para Rir e Refletir
Autor: Richard Simonetti

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